Já repeti o antigo encantamento,
E a grande Deusa aos olhos se negou.
Já repeti, nas pausas do amplo vento,
As orações cuja alma é um ser fecundo.
Nada me o abismo deu ou o céu mostrou.
Só o vento volta onde estou toda e só...
E tudo dorme no confuso mundo!
Outrora meu cordão fadava as sarças
E a minha evocação do solo erguia...
Presenças concentradas das que esparsas
Dormem nas formas naturais das coisas.
Outrora a minha voz acontecia.
Fadas e elfos, se eu chamasse, via,
E as folhas das florestas eram lustrosas...
Minha varinha, com que da vontade...
Falava às existências essenciais...
Já não conhece a minha realidade.
Já se o círculo traço, não há nada.
Murmura o vento alheio extinto ais,
E ao luar que sobe além dos matagais
Não sou mais que do que...
Os bosques ou a estrada.
Já me falece o dom com que me amavam.
Já não me torno a forma e o fim da vida...
A quantos que , buscando-o, me buscavam.
Já, na praia, o mar dos braços não me inunda.
Nem me vejo ao sol saudando erguida,
Ou em êxtase mágico perdida,
Ao luar, à boca da caverna funda!
Já as sacras potências infernais,
Que dormentes sem Deuses nem destinos,
À substância das coisas são iguais,
Não ouvem minha voz ou os nomes seus.
A música partiu-se do meu hino.
Já o meu furor astral se desfez...
Nem meu corpo pensado é já de uma Maga!
E as longínquas deidades do atro poço,
Que tantas vezes, pálida, evoquei...
Com a raiva de amar em alvoroço,
Inevocadas hoje ante mim estão.
Como, sem que as amasse, eu as chamei,
Agora, que não amo, as tenho, e sei...
Que meu vendido ser consumirão...
Tu, porém, Sol, cujo ouro me foi presa,
Tu, lua, cuja prata converti,
Se já não podeis dar-me essa beleza...
Que tantas vezes tive que querer...
Ao menos meu ser findo dividi...
Meu ser essencial se perca em si...
Só meu corpo sem mim fique alma e ser!
Converta-me a minha última magia
Numa estátua de mim em corpo vivo!
Morra quem sou, mas quem me fiz e havia,
Anônima presença que se beija...
Carne do meu abstrato amor cativo,
Seja a morte de mim em que revivo;
E tal qual fui, não sendo nada...
Faz surgir, o que há de Real em Mim!
Agosto/2009
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
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